O Beijo

Pela primeira vez na história da TV Globo, maior emissora do país, reconhecida por seus altos índices de audiência no horário nobre, período em que exibe a telenovela, no dia 31/01/2014, com reexibição no dia 01/02/2014, ocorreu um beijo entre dois homens  (personagens da trama).

O romance entre Niko (Thiago Fragoso) e Félix (Mateus Solano) teve final feliz selado com um beijo no capítulo final de Amor à Vida.

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O que isso representa?

Uma quebra de paradigma entre o grande público e sua opinião, um respeito maior à diversidade sexual, pois a “novela da Globo” é, no Brasil, pela nossa cultura televisiva, a representação, um “termômetro”, da opinião popular.

A teledramaturgia é o produto televisivo mais tradicional do país. A primeira telenovela brasileira foi exibida na TV Tupi de São Paulo, Sua Vida Me Pertence, escrita e dirigida por Walter Forster, estreou em 21 de dezembro de 1951 e era apresentada ao vivo. O primeiro beijo da televisão brasileira aconteceu nesta novela entre os protagonistas, interpretados por Walter Forster e Lia de Aguiar, que não passou de um inocente “selinho”. Mas na época foi tido como um escândalo, surgindo muitos boatos e cartas enviadas à TV Tupi criticando a atitude dos dois atores, uma imoralidade para as década anterior ao inícios dos conhecidos anos de chumbo.

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No ano de 1995, houve uma grande especulação e expectativa sobre o primeiro beijo gay da TV brasileira, que acabou não acontecendo, era a novela A Próxima Vítima que estava no ar, pela TV Globo e a questão era levantada por meio dos personagens Jefferson, interpretado por Lui Mendes, e Sandrinho, vivido por André Gonçalves. Segundo Lui Mendes, não havia necessidade, pois o mais importante era construir a relação de companheirismo entre os dois. “Não teve beijo. Era uma polêmica porque todo mundo pedia. Não precisava beijar para demonstrar que o autor queria passar um amor homossexual. O que era necessário foi o que a gente conseguiu, conquistar a aceitação do público”, lembra. Mas na época ocorreu uma agressão ao ator André Gonçalves, que apanhou na rua de homofóbicos.

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O filme de 1999, Meninos Não Choram, representa exatamente a violência frente à diversidade. Baseado numa história real, o filme relata a juventude de uma jovem garota que decide assumir sua transexualidade, mas para fugir do preconceito e negação da sociedade adota nova identidade, transformando-se num garoto, como um forasteiro que encantou a pequena comunidade rural de Falls City, no estado de Nebraska, era adorado e quase todos que conheciam esse recém-chegado carismático eram atraídos por sua inocência encantadora. Quando sua verdadeira identidade é descoberta, o mistério desdobra-se em violência, estupro, espancamento e assassinato. O filme representa a história de um jovem americano à procura do amor, de si mesmo e de um lugar para chamar de lar.

Assim como no filme, e com os atores da novela, no cotidiano muitas pessoas sofrem agressão física e moral, seja nas ruas, seja na família.

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Em Mulheres Apaixonadas, 2003, novela da TV Globo, Alinne Moraes e Paula Picarelli formaram um casal gay. As duas adolescentes estudavam na mesma escola e o relacionamento homossexual causou confusões com os alunos. Um dos maiores picos de audiência da novela aconteceu no capítulo em que Clara foi xingada de “sapatona” por uma colega de sala.

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Aparentemente o público preferiu assistir um acena de violência a uma cena de demonstração de afeto. O beijo de amor não ocorreu, vetado pela opinião do público. Foi aceito um selinho enquanto elas representavam uma peça de teatro, de Romeu e Julieta, onde uma das duas fazia papel do Romeu.

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As especulações referentes à aceitação do público acabam por fomentar o preconceito, e colocar as pessoas à margem do convívio, ou seja, “aceitam” o homossexualismo, mas se incomodam com  as demonstrações públicas de afeto.

Em 03/08/2003, ocorreu na cidade de São Paulo, num shopping, o beijaço que foi uma reação ao próprio shopping, acusado de “discriminação de orientação sexual”, quando um segurança do local pediu a dois gays, na entrada do shopping, que parassem de se beijar. O casal se sentiu ofendido com a abordagem e registraram Boletim de Ocorrência na polícia, homofobia é crime! É consagrado como objetivo fundamental da República Federativa do Brasil (art. 3ª, inc. IV): promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

O “beijaço”, como foi batizado o protesto, organizado por grupos GLBT (Gays Lésbicas, Bissexuais, e Transgêneros), reuniu cerca de 2.000 pessoas, depois do incidente, o shopping preparou uma decoração especial para o evento de hoje, os casais foram recebidos por centenas de “beijos vermelhos” espalhados por todos os andares.

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Na novela América, trama exibida pela TV Globo, em 2005,  chegou a ser gravado um beijo entre os personagens de Bruno Gagliasso e Eron Cordeiro, mas a cena foi vetada horas antes de ir ao ar.

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Em 12/05/2011, quase 6 décadas após o primeiro beijo na televisão, após diversos ensaios da Rede Globo de Televisão, nunca levados ao ar, numa novela do SBT, entitulada Amor e Revolução, foi ao ar o primeiro beijo entre duas mulheres na televisão brasileira, as atrizes eram Luciana Vendramini e Giselle Tigre. Entre as personagens uma apresentava vivências sexuais tanto com homens, quanto com mulheres, outra se sentia constrangida diante da proposta de um beijo, mas o afeto prevaleceu.

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Essa semana, nas redes sociais, o beijo gay da novela Amor a Vida, foi um dos assuntos mais comentados. No Twitter a hashtag #BeijaFelixeNiko foi mencionada mais de 25 mil vezes num dia.

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Gente, tem coisa mais bonita que um beijo, um abraço, um carinho?

É difícil entender como pode uma expressão de afeto, um relacionamento feliz, o amor, ofender alguém.

Se você tem alguma espécie de preconceito imagine quando tiver um filho ou filha, e se ele ou ela for homossexual? Como você vai lidar com a diferença?

Claro que na teledramaturgia a história é o que importa, já que é ficção, mas se for história de amor, tem beijo!

Um Beijo pra você!